Ozempic e Rins: Estudo FLOW, Proteção Renal e Nutrição na DRC
Ozempic e rins: o que mudou com FLOW, KDIGO 2024 e a indicação renal — e como a nutrição acompanha o paciente com doença renal crônica.

Ozempic e rins deixaram de ser assunto só de bula em 2024. O estudo FLOW demonstrou que a semaglutida 1 mg semanal reduz em 24% o risco do desfecho renal composto e torna a queda de função renal mais lenta em adultos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. Com base nesse ensaio, a FDA aprovou em janeiro de 2025 o Ozempic para essa indicação específica, e a diretriz KDIGO 2024 passou a listar o GLP-1 como quarto pilar do cuidado renal em diabetes. Este artigo traduz o que mudou e o que isso pede no prato de quem faz o tratamento.
- Desfecho renal composto (FLOW)
- 24% menor risco com semaglutida 1 mg (HR 0,76)
- Queda de eGFR
- 1,16 ml/min/1,73 m²/ano mais lenta
- Candidatos segundo o FLOW
- DM2 com eGFR 25-75 e UACR ≥ 100-300 mg/g
- GLP-1 com indicação renal aprovada
- Apenas Ozempic injetável (FDA jan/2025)
- Proteína em DRC G3-G5 (KDIGO 2024)
- Em torno de 0,8 g/kg/dia, individualizada
Ozempic e rins: a resposta curta (e por que ela mudou em 2024)
Durante muitos anos, a preocupação de quem tinha rim já comprometido era evitar medicamentos que pudessem sobrecarregar a função renal. A publicação do FLOW reorganizou essa leitura: a semaglutida passou a ser descrita como uma medicação que atrasa a perda de função renal e reduz mortalidade em uma população de alto risco, dentro de um perfil específico, o de adultos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica já documentada.
Contexto é a palavra-chave aqui. A indicação renal formal do Ozempic não cobre obesidade sem diabetes, não cobre doença renal sem diabetes, e não se estende automaticamente a outros GLP-1. Para entender o que se aplica a cada paciente, a decisão precisa ser feita pelo endocrinologista ou nefrologista responsável. A nutrição entra depois, traduzindo a diretriz para o estado clínico de cada paciente em acompanhamento individualizado.
O que o estudo FLOW mostrou: números, desfechos e limites
O FLOW, publicado no NEJM em 2024 por Perkovic e colaboradores, randomizou 3.533 adultos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica para receber semaglutida 1 mg semanal ou placebo, sempre em adição ao tratamento padrão, com seguimento mediano de 3,4 anos. O desfecho primário foi composto: piora sustentada da função renal, doença renal em estágio terminal, morte cardiovascular ou morte renal. Esse desfecho apareceu 24% menos nos pacientes que receberam a medicação (HR 0,76; IC95% 0,66-0,88).
Os dados secundários do mesmo estudo reforçam o efeito renal da semaglutida. A queda anual da eGFR foi 1,16 ml/min/1,73 m²/ano mais lenta no grupo tratado, a redução da albuminúria pela razão UACR ficou em torno de 38%, e a mortalidade por qualquer causa caiu 20% (HR 0,80; IC95% 0,67-0,95). A tradução prática é direta: a medicação não reverte a doença renal crônica, mas atrasa a perda de função e reduz risco de morte em um perfil em que essas duas coisas são o que mais pesa.
Os limites do FLOW merecem atenção. O estudo foi feito exclusivamente em adultos com diabetes tipo 2, com doses tituladas até 1 mg semanal, e em pacientes já otimizados com IECA ou BRA. Extrapolar o benefício para obesidade sem diabetes, doença renal sem diabetes, ou para outras moléculas da classe não tem suporte direto deste ensaio.
Como o GLP-1 protege o rim: mecanismos em linguagem acessível
A proteção renal da semaglutida no FLOW não se explica apenas pela perda de peso ou pelo controle glicêmico. Uma revisão em PMC sobre GLP-1 em DRC descreve vários mecanismos atuando em paralelo. No rim em sobrecarga metabólica, o glomérulo filtra em ritmo acelerado (hiperfiltração) e desgasta as unidades funcionais com o tempo. A semaglutida ajuda a aliviar esse esforço, reduzindo a pressão dentro do glomérulo.
Há também um componente anti-inflamatório direto nas células tubulares, efeito aparentemente independente da perda ponderal. Some a isso o melhor controle glicêmico, a queda pressórica modesta e a redução expressiva da albuminúria, e o conjunto explica o benefício observado no FLOW. A proteção é multifatorial, e por isso a medicação soma ao que já existe em vez de substituir os outros pilares.
KDIGO 2024: GLP-1 como o quarto pilar do cuidado da DRC em diabetes
A diretriz KDIGO 2024 consolidou uma mudança importante no cuidado da doença renal crônica em diabetes tipo 2. O primer em PMC sobre a diretriz descreve a estrutura de quatro pilares farmacológicos que a paciente com DM2 e DRC albuminúrica costuma ter no plano terapêutico: IECA ou BRA, inibidor de SGLT2, finerenona e, agora, agonista do receptor de GLP-1 como a semaglutida. Eles agem em alvos fisiológicos distintos e se complementam.
Uma subanálise do FLOW publicada na Nature Medicine confirmou que o benefício renal da semaglutida foi consistente em pacientes que já usavam iSGLT2 e em pacientes que não usavam, reforçando que as duas classes somam em vez de competir. Na prática, isso muda a expectativa da paciente: iniciar Ozempic não significa parar o iSGLT2 nem abandonar IECA ou BRA. A decisão sobre qual combinação é viável fica com a equipe médica e depende de tolerância, pressão, função renal basal e resposta ao longo do tempo.
A indicação FDA de janeiro de 2025: o que foi aprovado e para quem
Em janeiro de 2025, com base nos dados do FLOW, a agência reguladora norte-americana aprovou o Ozempic (semaglutida injetável) para reduzir o risco de piora sustentada da função renal, doença renal em estágio terminal e morte cardiovascular em adultos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. A Associação Americana de Diabetes registrou o marco como a primeira e única indicação renal formal dentro da classe dos GLP-1.
A precisão aqui importa. A aprovação é nominal para o Ozempic injetável, não para Wegovy, Rybelsus ou tirzepatida (Mounjaro). Essas moléculas compartilham o mecanismo geral da classe, mas não têm, até abril de 2026, indicação regulatória formal de proteção renal em DRC. A diferença entre "mecanismo de classe" e "indicação aprovada" orienta qual medicação cobre o benefício renal demonstrado e qual não cobre, sob responsabilidade da prescrição médica.
Nutrição em DRC + GLP-1: proteína, potássio, sódio e hidratação
A nutrição na interseção entre doença renal crônica e GLP-1 merece leitura cuidadosa, porque dois movimentos opostos convivem. A paciente com DRC nos estágios G3-G5 sem diálise costuma ter recomendação de ingestão proteica em torno de 0,8 g/kg/dia, segundo a diretriz KDIGO 2024, para equilibrar preservação de massa muscular e redução de carga renal. A semaglutida, por outro lado, suprime apetite, o que aumenta o risco de ficar abaixo dessa meta sem perceber. A prioridade é distribuir a proteína em porções menores ao longo do dia, variar fontes animais e vegetais e garantir que cada refeição possível entregue algo.
A restrição de potássio é capítulo à parte. Nos estágios iniciais da DRC (G1 a G3), ela geralmente não é necessária, e retirar frutas e hortaliças sem exame que justifique apenas empobrece a dieta. Em estágios mais avançados (G4-G5), com hipercalemia documentada, a restrição passa a ser individual, orientada pelo nutricionista em integração com a nefrologia. O mesmo vale para o fósforo: ultraprocessados, refrigerantes cola e embutidos carregam fósforo inorgânico de absorção alta e costumam ser os primeiros alvos quando a restrição é indicada.
Sódio e hidratação entram com orientação mais estável. A meta de sódio em DRC gira em torno de 2 g por dia, conforme a KDIGO 2024, e a hidratação precisa ser ajustada caso a caso, evitando tanto a desidratação (favorecida pelo apetite suprimido do GLP-1) quanto a sobrecarga (em estágios avançados com função renal muito reduzida). Para aprofundar as escolhas por estágio, o artigo sobre alimentação na doença renal crônica por estágio traz o panorama geral que este recorte assume como pano de fundo.
Quando este benefício se aplica (e quando não): critérios do FLOW
O perfil para quem o FLOW demonstrou benefício está delimitado no registro de inclusão do ensaio. Entraram adultos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica definida de duas formas: eGFR entre 50 e 75 ml/min/1,73 m² com UACR maior que 300, ou eGFR entre 25 e menos de 50 com UACR maior que 100 mg/g. Fora desse perfil, o benefício não é automaticamente transponível. Pacientes com diabetes tipo 2 sem albuminúria significativa, com doença renal sem diabetes, ou com obesidade sem diabetes não estavam na população avaliada.
Isso não significa que essas pacientes não tenham outras indicações para GLP-1. Significa apenas que a indicação renal específica do Ozempic, a aprovação de janeiro de 2025 e a posição da KDIGO 2024 sobre o quarto pilar foram construídas sobre a população do FLOW. Quem já está em uso crônico pode aprofundar o tema em uso de Ozempic a longo prazo, e quem quiser contextualizar o cuidado glicêmico mais amplo pode ler o panorama de alimentação no diabetes tipo 2.
Erros comuns e armadilhas da combinação DRC + GLP-1
O primeiro erro é assumir que Wegovy, Rybelsus ou Mounjaro substituem o Ozempic para proteção renal. Eles não substituem. A indicação formal aprovada pela FDA é específica do Ozempic injetável 1 mg, e trocar de molécula por disponibilidade, preferência ou preço muda o perfil de evidência coberto. O segundo erro é reduzir proteína por conta própria por medo do rim. A meta KDIGO de 0,8 g/kg/dia não é restrição agressiva: é patamar calibrado para preservar massa muscular, e cortar abaixo disso costuma acelerar a sarcopenia sem proteger o rim.
O terceiro erro é abandonar IECA, BRA, iSGLT2 ou finerenona ao iniciar o Ozempic. A lógica dos quatro pilares é aditiva, não de substituição, e qualquer ajuste depende de avaliação médica. Um quarto erro, mais silencioso, é negligenciar a hidratação. A saciedade prolongada da semaglutida faz muitas pacientes beberem pouca água sem perceber. Por fim, náusea intensa que compromete a ingestão proteica não é ajuste para fazer em casa: é ponto de conversa com a equipe, porque o risco nutricional em DRC é real.
O que monitorar ao longo do tratamento (exames e sinais)
O monitoramento da paciente com DRC + GLP-1 não é diferente na estrutura daquele já feito em DRC isolada, mas ganha duas camadas extras: vigilância do estado nutricional (pelo risco somado de sarcopenia e deficiências) e acompanhamento dos sintomas gastrointestinais do GLP-1 (pela interferência direta na ingestão). O painel abaixo organiza o que costuma entrar na rotina integrada de nefrologia, endocrinologia e nutrição nesta fase.
Para um painel amplo de vigilância nutricional além do recorte renal, vale complementar com o guia sobre monitoramento de deficiências nutricionais no Ozempic, que detalha micronutrientes e periodicidade de exames em uso crônico.
Quando procurar a nutricionista
A proteção renal com GLP-1 é trabalho de equipe. O nefrologista define a elegibilidade, o endocrinologista conduz a titulação, e a nutrição traduz a diretriz para o prato que cabe nesta fase, ajustada ao estágio da DRC, ao estado nutricional da paciente e à tolerância gastrointestinal ao longo do tempo. A mesma meta de 0,8 g/kg/dia de proteína toma formatos muito diferentes em uma paciente G3 com apetite razoável e em uma paciente G4 com náusea frequente.
Se você tem diabetes tipo 2 com alguma alteração renal documentada, se o seu médico indicou ou está considerando indicar Ozempic, ou se você já está em tratamento e quer organizar a nutrição na terapia GLP-1 com esse recorte renal, a consulta nutricional serve para mapear o que muda no seu caso. O acompanhamento especializado é a ponte entre a evidência do FLOW, a posição da KDIGO 2024 e a rotina alimentar que protege resultados ao longo do tempo.
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