Guia de Usuários de GLP-1

Ozempic Ácido Úrico Alto: Risco de Gota e o Que Comer no GLP-1

Ozempic, ácido úrico e gota: por que o urato sobe no início do GLP-1 e cai depois. Veja o que comer, o que evitar e quando procurar o médico.

9 min

Conteúdo validado por nutricionista

Gabriela Toledo

Nutricionista da Clínica VILE • Usuários de GLP-1

Ozempic Ácido Úrico Alto: Risco de Gota e o Que Comer no GLP-1

Sim, o ácido úrico pode subir e até precipitar uma crise de gota nos primeiros 3 a 5 meses de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro, justamente na fase em que o emagrecimento é mais rápido. Esse aumento costuma ser transitório. A médio e longo prazo, a própria perda de peso tende a reduzir o ácido úrico de forma consistente: na análise do SURMOUNT-1 com tirzepatida, a queda média foi de -0,69 a -0,95 mg/dL contra -0,18 no placebo, com cerca de 72,7% desse efeito explicado pela própria redução de peso. O ponto, nesta fase, é atravessar a janela inicial com a alimentação a favor, sem parar a caneta por conta própria.

Janela de risco transitório
Possível elevação do ácido úrico e crise de gota nos primeiros 3 a 5 meses, quando a perda de peso é mais rápida
Efeito de longo prazo (SURMOUNT-1)
Queda média do urato de -0,69 a -0,95 mg/dL na semana 72, com 72,7% atribuído à perda de peso
Maiores gatilhos alimentares
Álcool (sobretudo cerveja), frutose e refrigerante, carnes vermelhas, vísceras e mariscos
Alavancas que protegem
Hidratação adequada, ritmo de emagrecimento sem cetose extrema e proteína suficiente
Decisão da medicação
Medir o urato, tratar a crise e ajustar o GLP-1 são conduta médica, não nutricional

Ozempic pode aumentar o ácido úrico? A resposta direta

Pode, principalmente no começo. Quando o ácido úrico alto aparece no Ozempic, ele costuma surgir nos primeiros meses, em paralelo à perda de peso acelerada, e não significa que a medicação esteja falhando. É um efeito ligado ao ritmo do emagrecimento, não a uma toxicidade direta da droga sobre as articulações. A leitura correta é acompanhar, ajustar a alimentação e dar tempo ao processo, porque a tendência depois é de queda do urato.

Essa fase inicial assusta porque contraria a expectativa: a pessoa esperava que emagrecer só fizesse bem, e de repente o exame piora ou um dedão amanhece inflamado. Faz sentido o susto, mas o quadro é manejável. A prioridade aqui é entender o porquê e organizar as escolhas alimentares para reduzir o risco da janela transitória, sempre com acompanhamento nutricional alinhado ao médico que prescreveu a caneta.

Por que o ácido úrico sobe no início do GLP-1

O mecanismo combina três frentes que se sobrepõem na fase de perda rápida. Quando o corpo emagrece depressa, ele queima gordura de forma intensa e pode entrar em algum grau de cetose; os corpos cetônicos competem com o urato na excreção renal, então o rim elimina menos ácido úrico e ele se acumula no sangue. Some-se a isso o catabolismo: se a ingestão proteica fica baixa demais, há quebra de massa magra, e o turnover celular libera mais purinas endógenas, matéria-prima do ácido úrico.

Uma série de casos publicada em 2026 pela AACE descreveu exatamente esse paradoxo. Em quatro adultos que iniciaram tirzepatida ou semaglutida, três tiveram elevação do ácido úrico entre o terceiro e o quinto mês, com duas crises agudas de gota, independentemente do valor de urato antes do tratamento. Os autores levantam a hipótese da cetose e da alteração da excreção renal de urato durante o estado catabólico rápido.

A boa notícia é que esse acúmulo costuma ser temporário. Conforme a perda de peso desacelera e o organismo se estabiliza, a excreção renal de urato tende a normalizar. A janela mais delicada é a dos primeiros meses, quando a balança cai mais rápido.

A longo prazo o Ozempic baixa o ácido úrico? O que mostra o SURMOUNT-1

A médio e longo prazo, a direção se inverte. Emagrecer reduz a resistência à insulina e a produção de urato, e o resultado aparece nos dados. Na análise post hoc do SURMOUNT-1, com 2.539 adultos em uso de tirzepatida, o ácido úrico caiu em média entre -0,69 e -0,95 mg/dL na semana 72, contra apenas -0,18 mg/dL no grupo placebo. A análise de mediação mostrou que aproximadamente 72,7% dessa redução vinha da própria perda de peso, não de um efeito isolado da molécula.

Isso muda a forma de enxergar o tratamento. O Mounjaro e o ácido úrico, vistos ao longo do tempo, caminham para o mesmo lado: quanto mais consolidada a perda de peso, menor tende a ser o urato. Os dados de mundo real reforçam isso: um estudo de coorte retrospectivo em adultos obesos com diabetes tipo 2 não apontou aumento sustentado do risco de gota com a terapia GLP-1. É um achado observacional, sujeito a fatores de confusão, mas que ajuda a equilibrar o quadro: o problema relevante tende a ser a fase transitória inicial, não um agravamento crônico.

Há ainda o pano de fundo inflamatório. A gota é uma artrite inflamatória, e o emagrecimento melhora o ambiente metabólico. Nas análises dos estudos STEP com semaglutida 2,4 mg, a proteína C-reativa caiu de 39% a 48% em paralelo à perda de peso. Isso não mede ácido úrico diretamente, mas contextualiza por que reduzir peso ao longo do tempo tende a favorecer o quadro inflamatório de quem tem hiperuricemia.

Ozempic ou Mounjaro pode causar crise de gota?

Pode desencadear, sobretudo na fase de perda rápida e em quem já tem histórico de gota ou ácido úrico alto. A crise não acontece com todo mundo, e a maioria das pessoas atravessa o início sem nenhum episódio. Mas vale conhecer o sinal: dor súbita e intensa em uma articulação, frequentemente o dedão do pé, com vermelhidão e inchaço, em geral surgindo à noite ou de madrugada.

Quem já teve gota antes merece atenção redobrada nesses primeiros meses, com mais cuidado na hidratação e nos gatilhos alimentares. O risco aqui é transitório e individual, não uma sentença.

O que evitar: álcool, frutose e excesso de purina animal

Alguns alimentos e bebidas elevam o ácido úrico de forma mais marcante e merecem moderação especialmente durante a janela transitória. A diretriz de manejo da gota do American College of Rheumatology recomenda, de forma condicional, limitar álcool, purinas e xarope de milho rico em frutose, além de buscar perda de peso quando há sobrepeso. Os pontos de maior impacto na prática:

  • Álcool, sobretudo cerveja: a cerveja combina álcool com purinas da levedura e é o gatilho clássico de crise. O efeito do álcool é direto: ele reduz a excreção renal de urato e o organismo retém mais ácido úrico.
  • Frutose e refrigerante: bebidas adoçadas e excesso de frutose elevam o urato de forma rápida; segundo a mesma diretriz, 1 g/kg de frutose pode subir o ácido úrico em 1 a 2 mg/dL em duas horas.
  • Carnes vermelhas, vísceras e mariscos: fígado, coração, miúdos, camarão, mexilhão e sardinha concentram purinas animais e merecem porções controladas.

O detalhamento completo da lista de alimentos está no guia de o que comer e o que evitar para ácido úrico alto, útil para quem quer a tabela inteira sem repetir aqui. Sobre a bebida, a orientação específica sobre álcool e cerveja durante o uso de GLP-1 aprofunda como encaixar (ou pausar) o consumo nesta fase.

Preciso cortar feijão e lentilha? Purina vegetal x purina animal

Não. Esse é um dos mitos mais persistentes e que mais atrapalha a alimentação de quem usa Ozempic. Nem toda purina age igual: as purinas de origem vegetal, presentes em feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, espinafre, cogumelo e couve-flor, não aumentam o risco de gota da mesma forma que as purinas animais. Cortá-las só empobrece o prato e dificulta atingir a proteína necessária.

Isso importa ainda mais sob GLP-1, porque o apetite cai e o risco maior é comer pouco e perder massa magra. Leguminosas são aliadas: oferecem proteína vegetal, fibra e saciedade sem o peso das purinas animais. A regra prática é simples: priorize proteína de qualidade e variada, mantenha as leguminosas no cardápio e concentre a moderação onde ela rende, que é álcool, frutose e excesso de carne vermelha, vísceras e mariscos.

O que comer para atravessar a fase transitória

Três alavancas nutricionais reduzem o risco da janela inicial e cabem na rotina sem radicalismos. Elas funcionam melhor combinadas, ajustadas ao contexto de cada pessoa em consulta individualizada.

Roteiro prático

Três alavancas para proteger o ácido úrico no início do GLP-1

Base de orientação para os primeiros meses de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro, quando o emagrecimento é mais rápido. É estrutura prática, não substitui a avaliação médica nem a decisão sobre a medicação.

  1. 1

    Hidratar bem ao longo do dia

    Água ajuda o rim a eliminar o urato e dilui sua concentração no sangue. Sob GLP-1, a sede costuma diminuir, então a hidratação precisa ser intencional, distribuída entre as refeições e não concentrada de uma vez só.

  2. 2

    Manter a proteína suficiente para frear o catabolismo

    Proteína adequada reduz a quebra de massa magra e, com isso, a liberação de purinas endógenas. Distribua boas fontes ao longo do dia, combinando proteína animal magra e leguminosas, sem exagerar nas vísceras e carnes vermelhas.

  3. 3

    Respeitar um ritmo de emagrecimento sem cetose extrema

    Perder peso de forma gradual reduz o pico de urato da fase rápida. Cortes calóricos drásticos e dietas muito restritivas em carboidrato podem intensificar a cetose e o acúmulo transitório de ácido úrico.

A hidratação merece destaque por ser a alavanca mais direta sobre a excreção renal de urato; o detalhamento de quanto beber de água durante o tratamento e como proteger os rins ajuda a calibrar a meta. Já a proteína se conecta diretamente à preservação muscular: o conteúdo sobre como a nutrição protege a massa muscular na perda de peso com semaglutida explica por que esse pilar não é negociável quando o objetivo é também conter as purinas endógenas.

Quem tem gota pode tomar Ozempic? E o que é assunto do médico

Em geral, ter gota não impede o uso de GLP-1, e a perda de peso costuma jogar a favor do controle do urato no longo prazo. O que muda é a vigilância na fase inicial: vale conversar com o médico sobre medir o ácido úrico antes e durante o tratamento, especialmente em quem já teve crises. Como a excreção de urato depende da função renal, quem tem preocupação com os rins encontra contexto útil no artigo sobre Ozempic, função renal e o estudo FLOW.

A fronteira entre o que é nutricional e o que é médico precisa ficar clara. A dieta reduz risco e dá suporte, mas não controla a gota sozinha; as próprias recomendações alimentares da diretriz ACR são condicionais. Medir o urato, decidir sobre medicação para baixar o ácido úrico, tratar uma crise aguda e ajustar a caneta são condutas do médico. O papel da nutricionista é organizar a alimentação para atravessar a fase de risco e sustentar o benefício de longo prazo.

Resumo prático

Ácido úrico no GLP-1: o que comer, o que evitar e o limite da dieta

Resumo prático para atravessar a janela transitória dos primeiros meses de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro e colher o benefício do emagrecimento sobre o ácido úrico.

O paradoxo em uma frase
Nos primeiros 3 a 5 meses o urato pode subir pela perda rápida de peso; depois, o emagrecimento consolidado tende a reduzi-lo de forma consistente, como mostra o SURMOUNT-1.
O que evitar ou moderar
Álcool, sobretudo cerveja; frutose e refrigerante; carnes vermelhas, vísceras e mariscos em porções controladas, especialmente na fase inicial.
O que manter no prato
Leguminosas como feijão e lentilha não precisam ser cortadas; a purina vegetal não age como a animal e ajuda a manter proteína e saciedade.
As três alavancas que protegem
Hidratação intencional, proteína suficiente para frear o catabolismo e ritmo de emagrecimento sem cetose extrema.
O que é decisão médica
Medir o urato, tratar uma crise de gota e ajustar ou suspender o GLP-1; nunca pare a medicação por conta própria por causa do ácido úrico.

Para explorar os demais conteúdos sobre alimentação, composição corporal e efeitos metabólicos dos agonistas, vale visitar o hub de GLP-1 da Clínica VILE, que reúne os artigos da especialidade. O ácido úrico é mais um capítulo em que a nutrição bem ajustada faz diferença real ao longo do tratamento.